O escritor e mestre Rubem Alves disse que
"Ensinar é um exercício de
Imortalidade".
Deve ser por isso que lembrarei,
enquanto eu viver, de uma Mestra que transitou
por meu aprendizado, de
quem lembro com muita frequência quando busco uma referência de dedicação e
carinho à arte de ensinar. Trata-se de "Dona Manoelita", a primeira
professora de quem sentia o perfume de rosas, enquanto ela segurava a minha mão
ao rabiscar as primeiras letras. Ela não era apenas a professora que cheirava a
rosas... Era um ser humano de primeira linha,
pois tinha uma capacidade
única de se comover com o que estava além da sala de aula, preocupava-se com
seus alunos menos favorecidos pela sorte, (como eu).Trazia consigo sanduíches
de pão com queijo que distribuía para os que não tinham um lanche, a exemplo
dos mais abastados. Eu mesma fui aquecida por um dos casacos que ela tricotara
durante o ano para que seus alunos não sofressem nos dias mais frios. Lembro-me
dela me chamando pelo nome, enquanto os outros iam para o recreio: "Cirlei, fique uns minutos aqui comigo"
- então, fora até um pequeno armário no fundo da sala e de lá tirara um
casaquinho de tricô, azul claro, com botões madre-pérola e dissera-me:
"Guardei este para você, pois é da cor dos seus olhos." Na inocência
dos meus sete anos, fiquei vermelha feito um tomate e deixei que me ajudasse a
vesti-lo, abotoando-o... Que sensação maravilhosa ir para o recreio ostentando
aquela preciosidade macia, cheirando a rosas!
Aquele casaco me acompanhou por muito tempo e mamãe sempre que surgia a
oportunidade mostrava-se grata à professora que se preocupou com a escassez de
roupas de sua filha, enviando-lhe alfaces e cenouras que plantava no pequeno
quintal.
Dona Manoelita já partiu
dessa existência, mas não sem que, um dia, eu pudesse procurá-la, levar-lhe
flores, chocolates e um casaco na cor azul-clara, para aquecer o corpo daquela
que um dia me agasalhou.
Encontrei uma senhorinha
risonha, com dificuldade para se levantar, que não fazia a menor ideia de quem
eu era e muito menos se lembrava de ter me tricotado um casaquinho. Sorrindo
disse-me: "Eu não lembro disso, mas se você diz, então deve ser
verdade...! Eu a abracei forte e voltei a sentir o mesmo perfume da minha
infância,
que já não era mais de
rosas, mas de um jardim de gratidão!
E claro,
chorei! ... sem que ela soubesse o motivo, mas eu estava diante de alguém que
não apenas me ensinara as letras, mas ensinou-me o olhar que devemos ter ao
sofrimento alheio!
Hoje, meu perfume também é
de rosas, o que me traz com frequência à lembrança Dona Manoelita, uma Mestra
na arte da humanidade!